*Mesmo que mude*Ela vai mudar.
Bem certo que ele também.
Haverá o dia em que, não mais que de repente, ela vai decidir dormir do outro lado da cama. Ele, talvez, pense que dormir de rede lhe convém.
Ela vai deixar de pintar os lábios. Ele, de se importar com os cabelos.
Ela já não cantará mais no chuveiro. Ele trocará o futebol aos domingos pelas "palavras cruzadas".
Ela vai escolher um jeito novo de dizer "amor". Ele não lhe trará mais rosas vermelhas...talvez lhe traga um vaso, ou pães quentinhos da padaria ao lado. Não por desmazelo, mas pela rotina que torna os presentes funcionais. Ela pregará o botão daquela camisa que ele pedira há tanto tempo. A camisa não o veste mais, ainda assim, ele parecerá satisfeito pela lembrança.
Os dias correrão...lentos, vagarosos...
Então haverá uma tarde. Não uma manhã, pois pela manhã cada qual tem seus "afazeres domésticos". Não uma noite, pois eles dormem cedo.
Uma tarde.
Em que sentados na varanda, cada qual em sua cadeira de balanço, ele sentirá uma vontade enorme de tocar-lhe a mão. E o fará. E qual será seu espanto quando olhá-la nos olhos e enxergar a alma de menina com quem se casara. Os lábios já não tem mais aquele fervor e o carmim de antigamente, mas ainda lhe parecerão sensuais.
Ele também não está nada mal, ela pensa consigo. Os cabelos, embora ralos, ainda lhe dão todo aquele requinte.
E, por um instante, eles recordarão que a vida não podia ter sido de outra forma. Vão lembrar daquele baile com carinho, daquela música, daquela noite.
Ele vai beijar-lhe a mão do mesmo jeito de antes e ela piscará devagar. Uma, duas, três vezes...os olhos ainda sabem dizer "eu te amo".
E eles dirão um ao outro, em silêncio.
Tudo faz sentido agora.
PS.: "É sempre amor mesmo que mude..."
PS².: Deixa eu ficar velhinha do teu lado?