terça-feira, 13 de outubro de 2009

*Dos passarinhos*

* Respostas *
Deitados na areia, observavam o mar brincar com a luz do sol.
- Sabe eu acho mesmo que o céu podia ser outra cor além de azul. - virou-se para ela, apoiando-se no cotovelo direito.
- E por que isso agora? Fome?
O sarcasmo sempre fizera parte dos dois e zombar um do outro havia se tornado um novo jeito de se importar.
- Ora, sua tola, não precisa ter um motivo. Eu apenas gosto de pensar que posso mudar as coisas no mundo.
Ele por si só já mudava muita coisa no mundo. Ela bem sabia disso. Teve vontade de dizê-lo, mas não disse. Ao invés disso tirou-lhe a areia escondida entre os cabelos.
- E de que cor seria, então?!
"Podia ser da cor dos seus olhos"- ele quis dizer. Mas não disse. Ao invés disso tomou-lhe a mão e passou a brincar com seus dedos finos.
- Eu não sei...há tantas cores que combinaríam. É difícil escolher. Eu também não preciso mudar tudo sozinho, não é?!
E sorriu.
Sorriu como se nada existisse além daquele instante. Como se o sol tivesse sido feito pra tentar ofuscar, sem sucesso algum, o brilho daquele sorriso. Como se ela não fosse feita de carne e osso. Como se ela ainda soubesse respirar.
Dois segundos a mais e estaria sozinho na praia, um corpo gélido ao lado. Mas ela já se acostumara a sentir-se assim. Era quase um deleite.
"O que ela pensa quando silencia dessa forma?" Ele ficava atônito só de imaginar. Segurando sua mão, ardendo em chamas com o toque de cada dedo delicado dela, sentindo seu cheiro almiscarado trazido pela brisa, ele só conseguia pensar em uma coisa: o que ela faria se eu a beijasse? A última vez que isso acontecera estavam os dois tão absortos que ele não conseguia lembrar em que contexto o beijo chegara. Apenas lembrava do gosto. Nossa! Já fazia tanto tempo e ainda podia senti-la em seus lábios.
- Não, você não precisa. Mas bem que gostaria. Metido!
Quebrado o silêncio, os dois agora ríam como se os pensamentos atormentados não estivessem a ponto de explodirem em "sims" e "nãos". Talvez.
Deitados, um do lado do outro, mãos espalmadas, o galope surdo dos corações dentro do peito. O céu devia ter uma resposta. Ou simplismente eles haviam perdido a coragem de se olhar.
- Você é minha melhor amiga[?].
Não entendeu se aquilo era uma pergunta ou uma afirmação. Apenas assentiu. Os olhos ainda fixos no manto azul chapiscado de branco.
- Você me parece meio nostálgico hoje, não?!
Por que ela fingia não entender? Por que deixava-o tomar todas as iniciativas? Por que calava quando ele precisava ouvir de sua voz que ela também o queria? Já não sabia o que dizer. Maldito aquele que inventara o padrão do primeiro passo masculino. Há tanto tempo ele esperava apenas um gesto, um sinal...
E ela só precisava disso. Um gesto. Um sinal. Como saber se aquele a quem confiara todos os seus defeitos, aquele a quem mostrara-se sem máscaras ou maquiagem alguma, aquele que conhecia todas as suas manias e vícios era também a sua tão esperada personificação de amor?
Como seria tê-lo agora diante dos olhos e tão distante de um beijo, um toque? Da última vez que eles tentaram ela sentiu tanto medo da amizade esvair-se, no entanto tudo permanecera exatamente igual. Talvez ele nem lembrasse mais. Talvez nem sentisse mais.
"Melhor não arriscar"
"Melhor deixar pra lá"
E o mar ia levando os grãos de areia, como quem carrega água em peneira.
Ps.: Entre sim e o não, sempre o TALVEZ. Entre você e eu, sempre a [há!] ESPERANÇA.
Ps.: E todo mundo um dia calou o que sentia e falou o que devia.

segunda-feira, 7 de setembro de 2009

*Do portão*

* De quando se volta da onde se partiu *
Tenho procurado inspiração em cada uma das coisas que vivi nos últimos momentos de minha vida.
Um gesto, uma cena, um lugar, um beijo, um desejo, uma vontade.
Talvez uma palavra ou uma música ou ainda uma saudade. Daquilo que foi sem ficar, do que ficou sem ser, do que parou e nunca foi.
E eu vi de um tudo nessa busca. Vi lágrimas, vi o pôr-do-sol, vi semblantes, vi mãos dadas, vi o passar do tempo, vi a morte. E nada nunca me pareceu tão absurdamente rotineiro.
A vida, por si só, recai na rotina.
Principalmente quando a gente apenas vive. Quando a gente deixa de desejar que o mundo pare no instante de um beijo, quando não se sente mais o sabor da água (sim, porque ela tem sabor. O sabor da sede, pra quem não conhece.), quando se deixa de escrever cartas pra escrever e-mails, quando uma música não te remete a uma lembrança, quando um olhar não te move a outro plano, quando não se tem tempo de fazer uma graça a uma criança, quando se deixa de cantar no chuveiro, quando se deixa de chorar, quando as declarações de amor te passam despercebidas, quando o cheiro do mar não te faz mais fechar os olhos, quando você deixa de andar descalço na praia, quando prefere olhar a chuva da janela, quando prefere calar...
Acho mesmo que a vida vira rotina quando a gente deixa que ela passe pelos pulmões sem banhar a alma.
E nunca é tarde pra se viver nem pra se falar de amor.
Ps.: Porque eu descobri que ainda não sei de nada. E queria dividir com alguém.

sábado, 6 de junho de 2009

*Dos embalos*

*Do único beijo*
Tomou-a em seus braços como se a noite fosse roubá-la.
Como se pudesse extrair de seus cabelos um fio sequer de sensatez e descobrir em seus olhos o caminho de volta pra casa.
Esperava, assim, que o álcool saísse pelos poros sem ser sentido e que restasse apenas o cheiro adocicado do perfume para que pudesse lembrar no dia seguinte.
Ela, por sua vez, permaneceu impávida. Deliciava-se com cada gesto, cada toque, cada suspiro, cada flamejar de desejo. Seria ele? Por um lapso, assistiu uma noite inesquecível e uma manhã com café-na-cama. "Boba!" - censurou-se.
A música soava longe agora, abafando o suplicar da pele...
"Me beija..." - pensou. O coração pulou do peito e foi bater junto ao dele.
Deslizando contra a gravidade, as mãos encontraram o rosto dela. Ainda conseguiu olhá-lo, envolto entre os dedos, antes das pálpebras caírem sobre os olhos.
Beijou-a.
As bocas fechadas, num primeiro instante, pareciam buscar um reconhecimento, vagarosamente...em seguida já afrontavam-se com uma calidez impudente.
Tentou se concentrar no gosto que ela tinha. Não pôde identificar.
"Ele tem gosto de tequila e limão" - ela divertiu-se.
A música foi parando...
O beijo acabando...
Os braços se soltando...
Olharam-se sem promessas.
E, enfim, ele a perdeu pra noite.
Ps.: Para os que dançaram com todas as almas e perderam as gêmeas. A estes, o Amor vem como um sopro de cigarro: fugaz e atordoante.
Ps².: Deixa eu namorar você todas as noites como se fosse a primeira?

quarta-feira, 27 de maio de 2009

*Das poucas vezes*

*Abandono*

E eu cansei de esperar que as coisas trilhassem o caminho certo
que as cidades submersas de repente apontassem no oceano e ensaiassem um quadro
que o silêncio "quase fanho, sempre mudo" se rompesse em um suspiro
que os braços fossem laços de fita na roupa da menina...
Cansei de esperar que os sonhos não se restringissem a boas lembranças
e que a vida pudesse ser primavera em mês de inverno.
Cansei.
Assim simples, no dia em que a flor nasceu do asfalto.
Ps.: Porque hoje - só hoje - eu peço permissão pra estar triste.

quinta-feira, 7 de maio de 2009

*Do novo-velho de todo dia*

*Para os escafandristas*
Decidiu adiar o amor.
Assim, subitamente, como se a vida já não tivesse escrito cada qual em seu papel.
Parou o relógio e esperou que o tempo lhe fosse companheiro. O mesmo tempo que mofara as cartas e corroera as lembranças.
" Cuidado, menina, não te afobas que o tempo é traiçoeiro..."
Esperar não era o caso.
Pediu a ele que saísse. Que não levasse tudo, para o caso de uma noite de chuva, mas que fosse sem a certeza do inverno.
Disse-lhe algumas palavras que se perderam em meio ao vão do adeus. Algo sobre saudade, amizade, novos planos. Palavras de um futuro bom, em algum lugar do mundo onde ele não precisasse ouvir a voz dela antes de dormir.
Disse-lhe que tudo ia ficar bem, embora já não o soubesse mais.
"Amores serão sempre amáveis" - já dizia o poeta...
Quando a porta da frente bateu, a alma pediu socorro. Não encontrou. A dor transbordou-lhe a retina e foi banhar seu rosto, sua roupa, seu lar. E foi aí que o tempo, ao invés de correr léguas, lhe trouxe o passado de volta. De bandeja, da mesma forma que tirara.
O primeiro beijo, a primeira jura - "Um táxi por favor" - aquele dia, aquela promessa - "Apartamento 101, segundo andar. Sobe."
E lembrou-se de cada palavra das cartas mofadas e de cada momento que havia esquecido...e dos segredos e dos planos.
"toc toc toc..."
A porta se abre. Por um segundo os olhos se beijam.
-"Oi...é...desculpa, mas é que você esqueceu a escova de dentes."
Do outro lado um sorriso. Tão igual quanto no primeiro dia.
E, finalmente, lembrou-se porquê estava ali.
Agora os olhos diziam:
"Vem amor, que tu já passou tempo demais longe de mim!"



Ps.: O pouco que eu sei do amor é o muito que sinto todos os dias e nele eu vejo que existe, sim, algo nessa vida que pode ser eterno. Pelo menos enquanto dure. Boa sorte a ela que acreditou mais uma vez.

sábado, 2 de maio de 2009

*Dos instantes que eu não quero esquecer*

*Daquele dia*
Enfim disse a ela que a amava.
Não disse assim dizendo, com palavras curtas de significado imenso. Não disse assim como quem diz a previsão do tempo, as horas, ou como quem dá uma aula de etiqueta.
Disse sem dizer, desmazelado. Daquele jeito tão dele, que ela tanto gostava.
A boca muda, as mãos geladas, os olhos embaçados. Quase podia ouvir-lhe as punhaladas do coração no peito, querendo sair. Quem sabe esse não fosse o melhor jeito?! A boca cuspia-lhe o coração fora e este pulsaria nas mãos dela. Vermelho-vivo. Talvez assim ela pudesse entender como ele se sentia, afinal. Talvez essa fosse a forma certa de falar de amor. Ou talvez não.
O silêncio era gritante quando ele pegou-lhe a mão e fitou seus olhos. "Como eu a amo..." pensou enquanto o vento brincava com a saia dela.
As pupilas dilataram-se quando ela chegou mais perto. Ouviu-se apenas o murmúrio:
"Eu também amo você"
E ele continuou mudo.
O sol demorou a sair naquele dia.


Ps.: Porque às vezes tu nada diz e, mesmo assim, eu escuto tudo o que queres dizer.



sábado, 4 de abril de 2009

*Das verdades*

*Dos escarlates*
- Hum...o quê?
O que eu deveria dizer, agora que você roubou a única coisa que ainda me restava? Agora que você despetalou cada vergonha, cada pudor, cada eu que ainda cabia em mim?
Devolva.
Devolva esse amor tanto tempo guardado em músicas, poemas e saudades do que não vivi.
Devolva em forma de estrelas no céu, pés entrelaçados, a minha mão, a tua...devolva com os olhos, com a boca, com a pele...devolva como eu quero, como eu mereço, como eu preciso...
Devolva para sempre.
Ps.: "Tu vens, eu já escuto os teus sinais..."
Ps².: Agora só faltam 3 dias para as noites serem banhados com SOL.