
- Sim...aceito.
Foi a última coisa que ela conseguiu ouvir antes da primeira lágrima cair e encontrar seus lábios. Sentada no último banco da igreja, ela tinha uma visão panorâmica da felicidade indo embora. Por entre as cabeças em sua frente e os arranjos de lírios que ladeavam o corredor principal, ela o avistava. Trajava um terno escuro, cabelos metodicamente penteados, barba feita...na mão esquerda, agora, uma amarra reluzente. Ria como um anjo.
Ao seu lado, olhos vidrados, a mulher vestia branco. O tão tradicional branco de todos os sonhos. O dourado dos cachos brincava em seus ombros nus e as pérolas no pescoço davam-lhe um ar clássico. Noiva de filme. Estava tão irritantemente linda que a fez nausear.
Os dois completavam a moldura do resto da capela. Fazendo os votos, ali, um diante do outro, amando-se, respeitando-se...parecia tão surreal quanto a coragem dela em ir a este casamento. "Não vou suportar". A cabeça balançava de um lado para o outro...o ar mais rarefeito agora..."Como as coisas chegaram a este ponto?" Procurou na mente vaga o momento em que tudo desandou. Não sabia. Teve vontade de gritar, tomar-lhe a mão e os dois correriam igreja a fora, até fugir dos olhares curiosos...ele teria de aprender a amá-la outra vez...
Não pôde. A forma como ele segurava a mão da outra e encarava-lhe a face, despiam-na de qualquer desejo de interromper. Tentou lembrar se alguma vez ele a olhara daquele jeito...o ar não chegou nos pulmões.
Perdera.
Tantos anos e ela só se deu conta que o perdera quando ele se entregou a outra."Burra!" O pensamento latejou.
Baixou a cabeça e viu que as lágrimas que escorriam do rosto, molhavam o vestido cor de uva. Ele adorava o contraste do roxo com sua pele branca, lembrou-se saudosa. Ele adorava como ela passava insegurança em cima de um salto alto ou como ela sorria, desleixada, de suas piadas bobas. Ele adorava tanta coisa nela e nunca escondeu. Ela, por sua vez, sempre teve medo. Sempre esteve ocupada, sempre esteve estressada, sempre "nunca esteve".
Odiou-se por dois segundos quaisquer.
Quando levantou os olhos, viu que ele beijava a noiva. Olhos fechados, mãos firmes em seu rosto. Estava selado.
- Marido e mulher! - escutou vagamente. Ou fora seu subconsciente tentando, a todo custo, acostumar-se com a idéia? Não sabia ao certo.
Apanhou a bolsa deixada ao lado no banco e, antes que pudesse ser vista, saiu da igreja. Da escadaria olhou para dentro e guardou a cena. O homem que acabara de casar era aquele a quem ela teria entregue todos os dias que ainda viriam e, naquele momento, pelo menos naquele momento, ela tinha o direito de ser infeliz.
A lua estava cheia e iluminava uma noite escura e sem estrelas. Descalçou as sandálias e desceu lentamente cada degrau. Ar, ela precisava de ar agora.
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Mal virou-se para a porta e uma silhueta o chamou a atenção. " Você fica linda de roxo, adoro o contraste da cor com sua pele..." - a frase latejou em suas lembranças como um lapso. Tentou apurar a vista. Viu quando a pessoa tirou as sandálias e sumiu na escuridão da noite.
- Não, ela jamais viria... - pensou baixinho embora seu coração sentisse o contrário.
O corredor ladeado de lírios parecia maior agora.
Ps.: Porque ter medo de amar é ter medo de viver pra sempre. O amor é divino.
Ps².: Eu prometo te fazer se apaixonar por mim todas as horas de todos os dias de uma vida inteira de FELICIDADE. Te amo. E eu não tenho mais medo disso.